| Para
quem viaja pelo grande rio, é muito difícil
ver animais. A exuberância das matas altas e dos igapós
aparece ao longe, nas margens - afastadas por cerca de cinco
a seis quilómetros. Nos trechos em que fizemos a viagem
de barco, a monotonia tomava conta de nós. Mas, quando
entramos nos canais e nos igarapés, pudemos apreciar
a riqueza da vida animal da região. Observamos, entre
outros, onças, macacos e muitas aves.
Já
em território peruano, percorrendo de lanchinha o Amazonas
até a confluência do rio Maranon com ollcayali,
chegamos a uma distância de 3.800 quilômetros
da foz do Amazonas. Há cem anos, no período
áureo da borracha, navios saíam diariamente
de Iquitos para Manaus e Belém. Hoje só existe
uma linha que opera uma vez por semana - um barco chamado
de rápido. Nesta parte da Amazónia, próxima
à cidade de Iquitos, a floresta é mais baixa,
bem menos densa. Não vemos mais as imensas árvores
das florestas do Estado do Amazonas. Ao longo das margens
do grande rio, além das
casas de palha, encontramos algumas serrarias flutuantes completamente
paradas. Uma prova de que naquela região não
existe mais madeira nobre para explorar. Mesmo com a floresta
já bem desbastada e |
|
pouca
diversidade de paisagens, a Amazónia
peruana atrai gente de todas as partes do mundo - resultado
do forte esquema turístico do Peru. Iquitos, todavia,
parece parada no tempo. Ficou isolada, com o fim da era
da borracha. Continua uma cidade pequena, com pouquíssimos
automóveis circulando.
Explicamos
a nossos guias que estávamos fazendo uma reportagem
sobre o maior rio do mundo. Todos ficaram encantados.
Queriam nos mostrar cada detalhe. O Instituto de Investigações
Científicas da
Amazónia Peruana, com sede em Iquitos, já
afirma, há muitos anos, que o Amazonas é
o mais longo dos rios. Seguimos então de lanchinha
até uns 120 quilômetros ao sul de Iquitos.
Pernoitamos num acampa-
mento no meio da selva, à margem de um pequeno
afluente do Amazonas. Tratava-se de uma instalação
rústica, toda de madeira e palha, mas com um pouco
de conforto para pesquisadores. De manhã cedinho,
partimos rio acima, em direção à
confluência dos rios Ucayali e Maranon - os quais,
ao se encontrarem, formam o rio Amazonas. Há muito
tempo pensava-se que a nascente do Maranon (e não
a do Ucayali, a ver-
dadeira. como comprovamos) era também a nascente
do Amazonas.
|
|
| O
rio gigante passa pelo canyon mais
profundo do planeta |
 |
|
No vale do Colca, que alcança 3.223 metros de profundidade,
o Amazonas se estreita, para depois seguir recebendo cada
vez mais águas ao longo do caminho.
|
|
A nascente do rio (ao lado) fica nos Andes, vizinha aos desertos
de Atacama e Nazca (foto embaixo). No paredão foi colocada
uma placa em honra de Loren Mcintyre; fotógrafo que
esteve na primeira expedição científica
ao rio, em 1971, mas não na nascente.
|
Machu Picchu, que permaneceu majestosa, livre da destruição
dos espanhóis. Um pouco mais ao norte dali, as águas
do Urubamba se encontram com as do Ucayali, e seguem em
direção ao Amazonas.
Deixando
para trás a região de Cuzco e Machu Picchu,
continuamos a viagem para o sul dos Andes peruanos, em direção
a Arequipa. Nesse trecho da cordilheira dos Andes existem
lugares impressionantes: ao viajar entre Arequipa e Andagua,
passamos pelo nevado Coropuna, com cerca de 6.500 metros
de altitude, e por Toro Muerto, vale repleto de rochas com
inscrições.
No
lado noroeste da cordilheira de Chila fica o vale dos Vulcões,
com 62 vulcões extintos. A paisagem é estranha
- pura lava. Quando subíamos as montanhas, sentindo
já os efeitos dos 4.500 metros de altitude, demos
de cara com um vulcão em plena atividade, expelindo
fumaça a cada dez minutos. É o Sabancaya,
que tem espalhado cinzas por toda a região. Sabancaya
quer dizer língua de fogo em quíchua.
|
|
| O
rio sagrado dos incas, o Urubamba,
também é parte do Amazonas |
|
Chegando
à foz do Ucayali. percebemos uma coisa fantástica,
que não tinha sido citada por nenhum pesquisador: esse
rio tem uma vazão muito maior que a do Maranon (este
é mais largo, mas muito mais
raso). O volume de água e sedimentos que o Ucayali
joga no Amazonas forma uma corrente fortíssima nesse
trecho peruano. A todo momento tínhamos que tomar cuidado
para não bater em imensas árvores
arrancadas pela correnteza. Muitas dessas árvores,
troncos, galhos e sedimentos vêm de longe, do trecho
em que o Ucayali desce a cordilheira dos Andes, formando imensas
cachoeiras e corredeiras - os chamados pongos.
O
Ucayali, que é o maior formador do Amazonas, tem cerca
de três mil quilómetros de extensão e
quase dois quilômetros de largura no trecho em que corre
na selva. Ele se origina nas nascentes mais remotas do rio
Apurimac. nos Andes do sul do Peru.
Decidimos
pegar um avião de Iquitos para Lima e depois para Cuzco,
evitando a subida dos pongos do Ucayali.
Cuzco,
considerada capital arqueológica da América
do Sul, impressiona pela beleza da arquitetura colonial espanhola,
infelizmente erguida sobre construções inças.
Tivemos uma surpresa quando entramos no subsolo de um casario
de estilo
|
|
espanhol e demos de cara com paredes de pedra, primorosamente
construídas no estilo inça - blocos com encaixes
perfeitos, sem argamassa.
Cuzco,
antiga capital do império inça, reúne
à sua volta belíssimas ruínas. Mas
a antiga cidade de Pisac, encravada na encosta de uma das
montanhas do Vale Sagrado, é, pela sua localização,
a mais imponente de todas.
De
Cuzco fomos de trem até Machu Picchu, descendo depois
as montanhas em direção às encostas
orientais dos Andes. voltadas para a região amazônica.
O trem segue pelo famoso Vale Sagrado, em parte formado
pelo Urubamba (o rio sagrado dos inças). O Urubam
ba leva prosperidade aos pequenos agricultores da região
- proprietários rurais que conseguiram suas terras
com a reforma agrária.
Enquanto
filmávamos e fotografávamos, percorríamos
trechos de montanhas que há meio milénio já
tinham um excelente sistema de estradas, ligando Cuzco a
todas as partes do império inça. Um império
que se estendia por quatro mil quilômetros, desde
o noroeste da Argentina até o Equador, mas que estava
centrado ali, nos Andes peruanos. No topo dessas montanhas,
já cobertas por manchas de mata amazônica,
os inças construíram a cidadela de
|
|
|