Nossa paixão sempre foi viajar pelo Brasil. A cada expedição, descobrimos coisas novas, nessa parte do planeta que prima pela megadiversidade de ecossistemas e de culturas. Há vinte anos, quando começamos a planejar nossas viagens, eu e Roberto já tínhamos um projeto de documentar a verdadeira nascente do Amazonas. Sabíamos que este é o maior rio do mundo em comprimento. Tínhamos lido algumas publicações questionando os critérios adotados para a medição desse grande rio, e que só faltava um fato; os cientistas localizarem a verdadeira nascente, o que acabou acontecendo no final da década de 1980, com auxílio de imagens de satélite. Em 1994, o Guinness Book já citava o Amazonas como o maior rio do mundo, mas acreditávamos que a medida ali consignada (de 6,750km) ainda não era a correta. Continuamos nossas pesquisas junto a instituições peruanas e então iniciamos, em novembro de 1994, nossa expedição à nascente do maior rio do mundo.

O critério para a medição de todos os rios do planeta é a utilização de seu formador mais extenso - no caso do Amazonas. o Ucayali. Medido, então, a partir de sua nascente verdadeira, a 5.300 metros de altitude, nos Andes no sul do Peru, o Amazonas passaria a medir 6.840 quilómetros - quase 240 quilómetros a mais que a medida atual do rio Nilo depois da construção da represa de Assua. Retornando da expedição, pedimos a ajuda do ÏNPE, Instituto de Pesquisas Espaciais, em São José dos Campos, São Paulo. E, a partir das coordenadas que fornecemos, o INPE - que é o centro de excelência para imagens de satélite em toda a América do Sul - está fazendo estudos minuciosos para anunciar para o mundo a
medida correia do Amazonas, nunca antes divulgada. Paulo Martini, pesquisador do INPE, de posse dos dados, disse:"As informações que vocês trouxeram foram fundamentais. Sem dúvida o local da nascente do Amazonas fica nessas encostas da cordilheira de Chila onde vocês estiveram, e não no monte Huagra - portanto, cerca de noventa quilômetros de rio mais ao sul. Uma vez conhecido o lugar onde nasce o Amazonas, fica muito mais fácil chegar à medida final. Os trabalhos deverão ser concluídos em quatro meses."

Os primeiros exploradores chamaram o rio Amazonas de mar - mar Dulce. ou mar doce. E não é para menos. Esse rio monumental despeja no Atlântico um quinto de toda a água doce lançada ao mar por todos os rios do mundo. Na foz, o Amazonas literalmente empurra o oceano até uma distância de 150 quilômetros da costa. E a cada ano esse rio colossal avança um quilômetro, depositando sedimentos sobre o Atlântico.

Em território peruano, o início da saga que revelaria a nova nascente
No começo do trecho peruano do rio Amazonas, não se vêem mais as majestosas florestas da Amazônia brasileira. Cem anos depois do período áureo da borracha, as matas estão seriamente desbastadas e só se encontram algumas serrarias inoperantes. Enquanto na época havia navios que saíam diariamente de Iquitos para Manaus e Belém, hoje apenas uma linha cobre o percurso - e só uma vez a cada semana.
Mas nossa perplexidade diante do Amazonas foi ainda maior quando percebemos, nessa expedição, que esse rio nasce junto ao oceano Pacífico e corta transversalmente todo o continente sul-amerícano até desaguar no Atlântico - atravessando dois países e diferentes regiões e culturas. Curiosamente, o Amazonas nasce nos cumes nevados dos Andes do sul do Peru, um dos lugares mais secos do mundo, e corre para a região úmida e quente da maior floresta tropical do planeta. Além disso, é o único grande rio de águas ainda puras, que formam o maior reservatório de água potável do planeta. Junto com seus afluentes, cobre sete milhões de quilômetros quadrados. Só na parte brasileira, esta malha de rios corta regiões de floresta alta, matas de igapó, áreas de cerrado e campos naturais-as várias Amazônias.

Nas muitas expedições que fizemos pela Amazónia brasileira, durante meses. usamos vários tipos de barcos, caminhonetes, tratores, helicópteros e pequenos aviões. Fizemos também longas caminhadas pela mata densa, a chamada floresta alta, compacta e contínua, que compõe a denominada Hiléía Amazônica. Em muitas viagens, nos afastamos do curso do Amazonas e chegamos a percorrer até 1.500 quilómetros de alguns de seus afluentes.

Navegamos em canoa pelas águas do rio Uraricoera, no norte de Roraima, quase fronteira com a Venezuela, num dos pontos mais ao norte da bacia amazôníca. O Uraricoera é afluente do rio Branco, que é tributário do Negro. Por outro lado, em nosso trabalho de documentação dos garimpos do rio Teles Pires,um dos formadores do Tapajós, já estávamos em Mato Grosso, a cerca de 1.500 quilómetros ao sul do rio Amazonas.

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